As pessoas vão desaparecendo ao longo dos anos e tu és o
único responsável por isso. Criam-se amizades e criam-se laços que parecem
inquebráveis. Mas não, há sempre algo que vem e estraga. É um ciclo inevitável.
Uma amizade só acontece quando ambos estão dentro dela. E eu não posso dizer
que seja uma santa. Não posso dizer que seja a melhor amiga do mundo porque
estou muito longe disso, mas desta vez eu fiz tudo o que podia.
Tudo na minha vida parece irregular e tu foste a primeira
coisa que aparentou estável. O primeiro rapaz com quem sabia que não ia
estragar tudo. E aqui apercebi-me do grande problema das relações: são feitas a
dois. Pela primeira vez, não estraguei tudo, pelo contrário, foi a primeira vez
que me estragaram a mim. E custa ser quem está do outro lado. É como se a
amizade fosse um vidro que nos separasse (irónico, não?). E ambos podíamos
simplesmente pegar na pistola e disparar contra ele. Sempre fui eu que fiz
isso, involuntariamente, mas desta vez eu estava do outro lado e não pude fazer
nada enquanto lentamente pegavas na pistola e pressionavas o gatilho.
A bala foi disparada, e o vidro quebra-se em enormes
pedaços. Os primeiros já me atingiram. Os primeiro danos colaterais
afetaram-me.
E eu sei como é estar do outro lado, de arma em riste,
demasiado cega para observar o outro enquanto é lentamente cortado por
consequência de nossas decisões. E sei o que vem depois também: os pedaços de
vidro saltam paa ambos os lados, e, mais cedo ou mais tarde atingirão o
agressor, embora mais pequenos, mais danificados, continuam a cortar: cortes
superficiais que raramente se transformam em cicatrizes. Normalmente forma
crosta que vai desaparecendo e é rapidamente esquecida.
Mas há quem esqueça a ceguidão, por pouco que seja. Há quem combata o orgulho e observe os danos que
causou. Uma visão simples e dolorosa: vidro por todo o lado, uns pedaços
límpido, outros embebidos numa substância seca outrora vermelha viva. E então
levanta-se o olhar. Cicatrizes, é o que predomina naquele que afetamos. A cara
aquece, a água embebe os olhos e os joelhos contactam involuntariamente o solo.
Gritos de desespero. Desperdício. As feridas já estão fechads e as cicatrizes
formadas. O sangue secou assim como as lágrimas. E é aí que sei que acabou.
Mas agora serei eu a primeira vítima. Eu derramarei a
primeira gota de sangue. Mas também eu secarei a primeira lágrima. Também eu
virarei costas e ouvirei os demónios implorando-me para que volte atrás e veja
como tudo ficou. E ignorá-los-ei.
O tempo passa e as cicatrizes são ocultas. Mas por muito que
queira nunca conseguirei apagar as cicatrizes que eu própria causei.
Tu és um rapaz inteligente, não vale a pena recorrer a
indiretas para chegar a ti, mas pior cego é o que não quer ver.
Faz o que quiseres da vida, desejo-te a melhor das sortes,
mas há coisas que nunca esquecerei.
“OK é a tua vez de perguntar!”
“Hmm... Se houvesse alguém que pudesses manter na tua vida
independentemente das circunstâncias, quem seria?”
“Ainda não sei com quem vou casar muito menos tenho filhos,
por isso... sim, serias tu.”
Posso vir a fazer muitas coisas na vida, e por ti acredita
que faria as maiores loucuras, mas pior que inimgos são amigos que duram um
ano.

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